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Desde 1950, tratores italianos Fiat vinham sendo montados na cidade de São Paulo através da firma Moto Agrícola Indústria e Comércio, que também os importava e distribuía. Dez anos antes de interessar-se em produzir automóveis no Brasil (decisão que só seria tomada no início da década de 70), a Fiat candidatou-se junto ao GEIA para aqui fabricar tratores de esteira. O projeto da empresa, que previa a produção de 500 unidades de 5,5 t e 45 cv, em dois anos (até junho de 1962), foi o único destinado a tratores de esteira, sendo os outros nove aprovados referentes a veículos sobre pneus para uso agrícola. Contudo, apesar de já oficialmente instalada no país (ainda em São Paulo, sob a razão social Tratores Fiat do Brasil S.A.), por muitos anos a nova empresa se limitou à fabricação de componentes. Somente em 1970, após vencer grande concorrência para o fornecimento de tratores para o governo de Minas Gerais, cujo contrato estabelecia a obrigação de produção local, decidiu iniciar a fabricação de máquinas completas, para isto adquirindo as instalações da Deutz, que acabava de abandonar o mercado brasileiro.

Situada em Contagem (MG), já em 1971 saíam de sua linha de montagem os primeiros tratores Fiat nacionais – modelo AD 7, com índice de nacionalização de 56%, em peso. Com 8,2 t, foram inicialmente equipados com motor diesel Fiat italiano (quatro cilindros, 6.872 cm3 e 74 cv), no ano seguinte substituído por um MWM nacional de 84 cv (então recebendo o nome AD 7B). Estes modelos tiveram grande penetração no país, principalmente na agricultura, com 3.300 unidades vendidas até 1972, respondendo por 55% do mercado (contra 45%, atendidos por outros sete fabricantes, apenas dois deles com produção nacional).

Em 1974 a Fiat italiana uniu-se à norte-americana Allis-Chalmers, dando o primeiro passo para a formação, no final do século, da gigante das máquinas agrícolas e de construção CNH; com a fusão, a empresa passou a ser uma das maiores do mundo no setor, produzindo tratores, pás carregadeiras, motoniveladoras, escavadeiras e scrapers. No Brasil, a Tratores Fiat assumiu a razão Fiat-Allis Tratores e Máquinas Rodoviárias S.A.. Naquele ano foram lançados mais dois produtos: um trator de esteiras, o AD 14, de 14,6 t, com motor Fiat importado (seis cilindros, 9.820 cm3 e 150 cv, logo trocado por MWM nacional da mesma potência) e, já como resultado da fusão, a escavadeira hidráulica Fiat-Allis S 90 (15 t, motor Fiat de 95 cv, caçamba com 0,86 m³ e alcance máximo de 7,50 m). Também estas máquinas logo se tornaram líderes em suas categorias, conduzindo à expansão da fábrica de Contagem, que triplicou a área construída em 1975. Mesmo assim a empresa ainda se encontrava distante da pujança que alcançaria anos depois, ocupando apenas o sexto lugar em vendas no setor de máquinas rodoviárias.

Em 1977 a Fiat-Allis submeteu ao governo federal planos para a produção nacional de motores para tratores. Naquele mesmo ano, ao absorver a Divisão de Equipamentos Industriais da Eaton e adquirir suas instalações de São Bernardo do Campo (SP), ampliou a linha de produtos, a ela agregando, com sua marca, quatro pás carregadeiras sobre pneus Yale, até então construídas pela Eaton: 134A (96 cv, 7 t e 1,5 m³ de capacidade), 1500B (105 cv, 8 t e 1,33 m³), 1900B (118 cv, 10 t e 1,91 m³) e 3000-BR (211 cv, 23 t e 2,7 m³). No início da década seguinte, a Fiat-Allis foi  claramente inserida no projeto de internacionalização do Grupo Fiat. A filial brasileira, que assinou contrato de oito anos com o Befiex, assumindo programa de exportação de longo prazo, tornou-se oficialmente responsável pelo suprimento da América Latina (já então unindo os nomes Fiat e Allis na nova razão social FiatAllis Latino-Americana). Foi, além disto, escolhida como única fornecedora mundial de motoniveladoras e tratores de esteira com até 100 cv.

Com este objetivo, em paralelo com a desativação da produção destas máquinas nas demais fábricas do Grupo, foi lançada a família FG, com três modelos de motoniveladoras articuladas – as primeiras do país: FG 70 (130 cv), 85 (153 cv) e 95 (169 cv). Fabricadas a partir de 1981 exclusivamente para exportação e lançadas no mercado interno em junho do ano seguinte, os equipamentos tinham características únicas na produção nacional: transmissão Power Shift com conversor de torque (permitindo a inversão de sentido sem parada da máquina nem desaceleração do motor), lâmina frontal (dispensando, em certos casos, o trabalho de apoio de tratores de esteira), controles totalmente hidráulicos e cabine fechada opcional, com ar condicionado e vidros laminados.

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AD 7 (à direita) e AD 14, os dois primeiros tratores Fiat fabricados no Brasil.

A nova estratégia se mostrou extremamente favorável para a FiatAllis brasileira, que por duas vezes foi nomeada Melhor Empresa Exportadora de Máquinas Rodoviárias (1982 e 83). Diversos novos equipamentos foram lançados entre 1983 e 84: os tratores de esteira 7D (9,4 t, motor MWM aspirado de 92cv) e FD 9 (10,6 t, motor MWM turbo de 110 cv), este com 92% de nacionalização em peso (90% em valor), para o mercado mundial; a versão a álcool (MWM de seis cilindros e 88 cv) do AD 7B, para misturas com 20% de diesel, primeiro do mundo sobre esteiras; as pás carregadeiras articuladas sobre rodas FR 10M, 11M e 12M, com potências entre 108 e 118 cv, freios a disco, conversor de torque e transmissão acoplada ao motor; e as motoniveladoras articuladas FG 85A e 95A. A linha de pás carregadeiras foi renovada em 1986 (FR 10B) e 89 (FR 12B); em 1990 foi lançada a maior delas, a FR 14 Turbo, com capacidade de 2,5 m³ e motor MWM com 151 cv. Por fim, em 1989, foi posto à venda o FA 120, trator de esteira configurado para tarefas agrícolas.

Ao longo da década de 80 a FiatAllis consolidou sua posição, tanto interna como externamente. Sua gama de produtos foi completada em 1990, ao ser lançada sua primeira retroescavadeira nacional (modelo FB 80, motor MWM de 77 cv, Power Shift), com isto tornando-se capaz de enfrentar a concorrência em todas as linhas. Naquele ano a empresa apresentou excepcional desempenho, respondendo por ¼ das vendas do setor e crescendo 4%, quando o mercado nacional retraía quase 10%. Na frente externa as exportações alcançavam países distantes como Irã e China, sendo que, nos EUA, as motoniveladoras brasileiras já conquistavam 40% do mercado.

Coincidentemente, aquele também foi o momento do grande salto da Fiat no setor de máquinas agrícolas: a aquisição pelo grupo italiano (aprovada em 1991 pelas autoridades econômicas norte-americanas e européias) de 80% do controle da Ford New Holland, extensivo aos ativos existentes no Brasil. Ao lado da FiatAllis – que manteve sua autonomia – a nova aquisição alçou os segmentos de máquinas agrícolas e de construção ao nível dos negócios mais importantes da Fiat do Brasil, precedido apenas pela fabricação de automóveis.

O início da década de 90 assistiu à liberação das importações pelo governo Collor. Com isto, a partir de 1991 a FiatAllis voltou a trazer do exterior alguns equipamentos para complementar sua linha nacional de produtos (os primeiros foram duas pás carregadeiras, uma sobre pneus e outra de esteiras), prática que perdura até hoje. Ainda em 91 chegou a série B de motoniveladoras, em lançamento mundial: eram oito modelos, quatro deles articulados, entre 14,7 e 18 t, com motores Cummins de 138 a 200 cv, opção de tração 6×4 ou 6×6 (tração dianteira hidrostática), novo comando eletrônico da transmissão e nova cabine com ar condicionado e pressurização (opcionais). Em 1993 foi a vez de duas novas pás-carregadeiras, os modelos FR18 e FR20.

Em 1994 foi lançada a escavadeira hidráulica FH200, com 21 t, MWM turbo de 125 cv, caçamba com capacidade de até 1,31 m³ e sistema hidráulico gerenciado eletronicamente; fruto da joint venture estabelecida em 1986 com a japonesa Hitachi, a máquina fazia parte de uma grande família, da qual oito modelos (entre 13,4 e 45,4 t) vieram a ser importados nos anos seguintes. Em 1996, com a Compact Line, foi renovada a linha de retroescavadeiras; três modelos (FB80.2, 90 e 100.2), com tração em duas ou quatro rodas, motor aspirado ou turbo e diversas opções de braços, caçambas e acessórios.

No ano seguinte (após a produção de quase 6.000 motoniveladoras, 2/3 das quais exportadas), três novos modelos foram agregados à linha: FG140 (142 cv, 14,2 t), 170 (172 cv, 16,2 t) e 200 (208 cv, 19,1 t); tinham transmissão Power Shift com comando eletrônico, diferencial com controle de tração, freios multidisco em banho de óleo, direção hidrostática e cabine (aberta, de série) com maior conforto para o operador. Também foi lançado novo trator de esteira, o modelo FD170, de 18,8 t, equipado com motor Cummins turbo de 173 cv e Power Shift.

Em 1999 deu-se a fusão da New Holland com a norte-americana Case, sob controle da Fiat, dando origem à gigante CNH. As unidades produtivas das duas empresas foram unificadas nos diferentes países em que operavam, tendo sido mantidas, contudo, suas marcas (assim como a FiatAllis, desde 1988 apenas utilizada na América Latina). Com a criação da CNH, o Grupo Fiat se tornou líder nacional em máquinas agrícolas e rodoviárias.

Após a racionalização das instalações do novo grupo no Brasil, foram retomados os lançamentos, com algumas novidades nacionais em meio a grande quantidade de importados. Em 2001 chegou a série FX de escavadeiras hidráulicas, com tecnologia O&K, empresa alemã também adquirida em 1999 (oito modelos de esteiras, entre 13 a 60 t, e três sobre pneus, de 16 a 21 t). A seguir foi renovada a linha de pás-carregadeiras (série 2 – cinco modelos, com potências variando de 147 a 241 cv, peso operacional de 10,5 a 22,5 t e capacidade entre 1,5 e 4,2 m³), com cabine e posto de comando totalmente novos, seguida, em 2003, da nova família FW de pás (FW 140, 160 e 200), com Power Shift, alavanca única para transmissão, elevação e basculamento da carga e, segundo a empresa, as maiores caçambas e a melhor visibilidade do mercado.

Se os primeiros anos do século XXI trouxeram excelentes safras agrícolas para o país (representando grande oportunidade para os fabricantes de máquinas), o mesmo não aconteceu com o mercado de construção pesada, que desde 1999 encontrava-se estagnado. A fábrica de Contagem (onde foi concentrada a produção de equipamentos de construção de todo o Grupo Fiat) operava em 2004 com 50% de ociosidade. Naquele ano o mercado reagiu, avançando 22,7% com relação a 2003; entretanto, enquanto a divisão de máquinas de construção da Case crescia 37%, a FiatAllis teve discreto aumento nas vendas – apenas 13% – ocupando o quarto lugar entre os fabricantes nacionais do segmento. A relativa perda de importância da FiatAllis no mercado brasileiro coincidiu com a decisão da administração central da CNH de fundir todas as marcas locais ou regionais até então sob sua administração – dentre as quais a FiatAllis – em uma única marca global, a própria New Holland (eram duas as intenções do Grupo Fiat com a medida: reduzir os custos operacionais entre 15 e 20% e facilitar a venda internacional de seus produtos). Assim, a partir de 1º de fevereiro de 2005, a marca FiatAllis foi extinta e sua linha de equipamentos absorvida pela divisão New Holland Construction da CNH.





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